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sábado, 11 de junho de 2011

Alemanha

Desculpem-me o silencio e a falta de pontuacao. Estou numa peregrinacao e nesse exato momento vejo um belo por-do-sol na cidade de Neustadt, na Alemanha. Proxima semana retorno a Roma e colocarei os textos e as fotos desta viagem.
Bom Pentecostes a todos e que as luzes do Espirito Santo vos iluminem sempre.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Em Saint Quentin, diante do túmulo de padre Dehon

Saint Quentin é uma cidade tranqüila e bela. Não se vê muito os horrores que as duas Grandes Guerras Mundiais produziram na cidade, apesar de alguns sinais terem sido preservados para que a memória não apague os erros do passado, e assim garanta que os mesmos não sejam repetidos hoje.
Perto do hotel onde estamos tem um cemitério, com uma bandeira francesa e muitas cruzes, indicando que aqui várias pessoas perderam a vida e outras não tiveram muito tempo de paz.
Na Igreja de Saint Martin, encontramos uma acolhida alegre de nossos confrades dehonianos, que prepararam um bom jantar à moda francesa. O padre Antônio, espanhol que há mais de vinte anos trabalha aqui na França, recebeu-nos e foi respondendo as diversas perguntas curiosas que tínhamos. Já os padres Bernard e Marcel, chegaram depois, estavam preparando o jantar. Ficamos sabendo que eles são conhecidos como “padres operários”, pois realizaram a missão de sacerdotes no meio dos operários das fábricas, tornando-se também eles operários para ficarem mais próximos desse povo. Passou pela minha cabeça toda a história de padre Dehon, que ao longo da formação eu tinha lido nos livros e escutado dos padres mais experientes, e agora, bem na minha frente, tudo se faz presente.
O jantar aconteceu num pequeno salão paroquial, no fim, ajudamos na arrumação da louça e do ambiente, e fomos para a Igreja. Só quando eu entrei dei-me conta que ali estava sepultado o Padre Dehon, nosso fundador. Minha razão de ser dehoniano está na coragem e na fé daquele homem. Quantas vezes eu ficava imaginando a sua realidade, a França de sua época, a cidade de Saint Quentin. Quantas vezes eu tentei entender o carisma dehoniano e adquirir uma espiritualidade do Coração de Jesus, como o próprio Dehon pensava. E agora, aqui estou diante do túmulo do Padre Dehon.



Já passava das nove e meia da noite, mas ainda era claro, pois o sol aqui não vai dormir cedo e às vezes espera a gente ir primeiro. Dentro da Igreja, construída pelo próprio Dehon, estava só o nosso grupo de formadores. Fizemos um semicírculo diante do seu túmulo, e iniciamos uma celebração. Não foi muito longa, mas intensa. Podia ver nos olhos de cada um de nós a emoção daquele momento, éramos dehonianos de tantas partes do mundo, de culturas tão diversas, mas ali, éramos todos filhos do mesmo Pai espiritual. Depois de uma pequena leitura, um silêncio, um canto e um por vez, com um ramo de flores nas mãos, fizemos um agradecimento especial. Alguns rezaram na sua própria língua, o que dava àquele momento um toque especial de internacionalidade e de dimensão congregacional.
No final, Vímal, nosso diácono indiano, depositou as flores sobre o túmulo e depois de um breve silêncio, cantamos.
Tudo é muito simples. A cidade não é grande, a Igreja onde iniciou a primeira comunidade dehoniana não é totalmente bela, o nicho onde estão depositados os restos mortais do Padre Dehon é humilde, mas ali, toda a nossa dehoneidade falou alto, é como se gritasse dentro de nós todas as verdades defendidas por padre Dehon. É como se coroasse todo o nosso curso de formadores, vivido nesses últimos meses. Veio-me à mente algumas frases atribuídas ao Padre Dehon: “deixo-vos o mais maravilhoso de todos os tesouros: o Sagrado Coração de Jesus”; “por Ele vivi, por Ele morro”; é preciso ter a bíblia numa mão e o jornal na outra”; “um homem que quer transformar a sociedade não pode ter idéias tímidas”, enfim, frases que nos ajudam a entender a força que este padre teve e toda a sua dedicação para fazer deste mundo um lugar melhor.
No encerramento deste momento, padre Antonio nos disse uma frase que um confrade francês falava sempre quando encontrava alguns dehoniano que vinha visitar Saint Quentin: “Vocês vem aqui para ver Padre Dehon, mas na realidade são vocês que acabam trazendo Dehon para nós”. Ele tem razão. Padre Dehon continua vivo na sua obra espalhada pelo mundo. Aqui está só o começo de toda essa história que, em nós, se faz atual.
Nossa peregrinação continua. Mas agora está com outra cor e outro sabor. No meu agradecimento, diante do grupo, eu disse uma frase que me motivou a conhecer pela primeira vez um seminário dehoniano: “Venha construir conosco a Civilização do Amor!”. Agradeci a Deus a vocação religiosa dehoniana, agradeci ao Padre Dehon toda a sua coragem de viver radicalmente o evangelho, e pedi que me ajudasse a ser fiel como dehoniano.
Na vida é preciso ter sempre motivações verdadeiras para poder realizar nossos sonhos. Melhor ainda é quando encontramos outras pessoas que também sonham como nós.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Agora eu sou um peregrino


Domingo eu acordei muito cedo. Precisa terminar de arrumar a mala, fazer a barba, tomar um bom banho e ir para missa. Tivemos uma celebração dominical na capela de nossa casa, em Roma. Era o VI Domingo da Páscoa, ouvimos no evangelho de João, Jesus falando que não nos deixará órfãos. É realmente reconfortante mergulhar profundamente na Palavra. Compromete-nos e consola, sempre.
Missa pronta, café tomado, partimos em peregrinação pelos lugares dehonianos. Eu não imaginava que pudesse viver essa experiência de maneira tão profunda como estou vivendo. É como se a vida fosse acontecendo de maneira tão intensa que quase não tenho tempo para respirar. Mas sei muito bem que todo esse tempo de estudos tem uma razão de ser, preciso me preparar para a missão, que é árdua e exigente. Trabalhar na formação de novos religiosos é sempre desafiador. A matéria prima é o coração do homem, são os jovens que encontrarei pela frente e mais do que ensinar alguma coisa, precisarei vivê-la com eles. Só mesmo a ajuda de Deus, que chama e que conduz, é que faz deste trabalho algo possível.
Mas partimos. Almoçamos em Pisa, ao lado da torre que parece que vai cair a qualquer momento e dormimos em Albissola, no Santuário Dehoniano de Nossa Senhora da Paz. Um lugar lindo, no meio de muito verde e muitas colinas, bem próximo do mar e do porto de Gênova, onde por muitos anos foi a porta de saída de tantos italianos que buscavam vida melhor na América, como fizeram meus antepassados.
Nossos confrades nos receberam com alegria, nos falaram daquele lugar de paz e, de maneira especial, nos falaram de esperança. Nossa província italiana está envelhecendo, como tantas em toda a Europa, e as vocações são raras, mas eu vi brilho nos olhos daqueles velhos dehonianos. Padre Bruno, com seus 92 anos, disse que “é preciso colocar no coração dos jovens a paz, só assim será possível um mundo novo”. Mas é isso que eu sonhava quando era jovem, pensei. Fiz uma prece pedindo a Deus que me dê a graça de chegar nessa idade com esse mesmo brilho nos olhos.
No dia seguinte acordamos antes do sol, celebramos a eucaristia e partimos, afinal, caminhar é preciso.
Chegamos à França, e o primeiro encontro foi em Ars, terra de são João Maria Vianney, depois partimos para Cluny, um lugar com mais de mil anos de cristianismo, andamos à Taizé, fiquei emocionado com a espiritualidade do lugar, e terminamos em Paray le Monial, terra do Coração de Jesus, da santa Margarida Maria e de são Cláudio Columbiere. Meu Deus, muita emoção para um mesmo dia... preciso descansar um pouco. Amanhã teremos um dia de recolhimento e oração. Eu continuo ouvindo as palavras de Jesus de domingo passado: não vos deixarei órfãos.
Obrigado Senhor, e não se esqueça de fazer o meu coração semelhante ao seu, mesmo que isso seja difícil.

sábado, 28 de maio de 2011

Saudade não sei bem de quê?


Canta Mônica Salmaso: “Um dia eu senti um desejo profundo de me aventurar nesse mundo pra ver onde o mundo vai dar...”.
Hoje faz um ano que cheguei à Itália. Era um dia quente, o céu estava azul, e eu feliz, tudo exatamente como o dia de hoje.
Vim para viver, talvez, a experiência mais particular da minha vida. Cheguei com o coração aberto, sem saber bem onde isso iria dar, mas com muita vontade de viver intensamente cada dia.
Aqui eu pude experimentar todas as emoções que um ser humano pode ter. Fui fiel em muitas coisas, relapso em outras, fiz o meu caminho. O que seria da vida sem o prazer de se aventurar pelo mundo, mas o mundo que falo é o nosso mundo interior, o mundo que temos dentro do coração. É preciso sempre redimensionar as coisas da alma, dar sentido às pequenas coisas, se não nos perdemos.
Saio dessa experiência com três certezas: que é muito bom ser dehoninano; que amo ainda mais a Igreja; e que tenho limites que ainda precisam ser trabalhados.
Descobri o que realmente é pertencer à Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. Pude tocar o “ser dehoniano” de maneira profunda e bela. Conheci mais sobre Padre Dehon, sua vida, seus sonhos, sua luta e sei que ele é santo. Conheceu Jesus profundamente e sentiu na pele o que é ser obediente, mesmo que isso o fizesse sofrer: Ecce Venio. Padre Dehon amava a Igreja e dedicou-se ao apostolado. Entendo agora o que ele quis dizer quando deixou escrito no testamento para os seus filhos espirituais: “Deixo-vos o mais maravilhoso de todos os tesouros: o Coração de Jesus”. Foi um homem que entrou no Coração de Jesus e viveu todas as alegrias e todas as dores desse Amor. Fiz amizades com confrades de terras distantes, e que para mim são exemplos de dehonianos. Sinto-me hoje mais dehoniano de que quando cheguei. Temos falhas, mas será que temos que colocá-las sempre como base de nossas opiniões, ou podemos construir nossos alicerces calcados nas experiências positivas que vivemos? Eu procuro escolher sempre a segunda opção, e assim deixar os olhos contemplarem as maravilhas das amizades e do mundo.
Conheci de perto a Igreja de Roma. Tive momentos onde o Papa se fazia presente, fui até ele numa visita com os bispos do Maranhão. Conheci o Vaticano, onde foi possível, li alguns documentos, participei de algumas celebrações importantes. Enfim, aproveitei para fazer uma experiência pessoal com a Igreja. Não fazia parte do meu curso, mas se estava aqui, por que não? Posso dizer que retorno a casa amando ainda mais a Igreja. Volto tendo a certeza de que a Igreja na América - Latina pode contribuir com a Igreja Universal. Somos uma Igreja viva, temos muitas pastorais, aprendemos a refletir com o povo, a ouvir e a delegar funções. Somos inseridos nos meios populares e não podemos nunca perder nossa identidade. Sei também que a Igreja na Europa está passando por momentos difíceis, descobri a Igreja na Ásia e fiquei maravilhado com a pureza de coração daquele povo, com a solidariedade e alegria com que levam adiante o Evangelho. Percebi que a Igreja na África é uma grande esperança para todo o mundo e que possui uma liturgia belíssima. Enfim, retorno com uma visão amplificada da nossa Igreja e com a certeza de que devemos nos unir para melhor evangelizar. Aprendi com o Beato João Paulo II, que não devemos ter medo, pelo contrário, devemos escancarar as portas a Cristo.
E com todas essas experiências eu também me descobri como pessoa. Fui estrangeiro e isso me deu a oportunidade de entrar em mim mesmo e olhar para minha vida. Levei um susto. Experimentei a queda e a misericórdia, a segurança e o medo, aprendi a recomeçar quase que diariamente e percebi que mudar algumas coisas em nós demora muito tempo. É preciso caminhar, perseverar e confiar na misericórdia de Deus.
Sabe que agora começa a me dar saudades... Não sei bem de quê, mas é hora de começar a arrumar o coração, colocar os livros na mala, ir despedindo dos lugares. Começo a ter “um anseio de tudo esquecer e voltar”.
É preciso recomeçar sempre, sou feliz com isso. Que Deus me ajude a ser fiel na minha missão.
Guardo comigo os amigos que fiz, as experiências vividas, o frio, o calor e o cheiro da primavera, tão intenso como o do outono. Carrego no coração apenas um agradecimento a Deus por mais essa oportunidade de me conhecer melhor.
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“Agora, aprendi porque o mundo dá voltas, quanto mais a gente se solta, mais fica no mesmo lugar...”.