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sábado, 7 de maio de 2011

Coragem e sonho: Meus companheiros de caminhada

Há quase um ano eu estava chegando na Itália. Lembro-me bem da preparação para a viagem de estudos e da emoção da chegada. Agora, onze meses depois, estou no mirante de nossa casa vendo o sol se despedir de mais um dia. Diante de mim toda Roma, e, ao fundo, a imponente cúpula de São Pedro. É como se essa paisagem fizesse parte de mim. Já estou aqui na Cidade Eterna tempo suficiente para sentir-me incorporado a essa atmosfera cosmopolita, dessa cidade tão ligada ao cristianismo e ao mesmo tempo com tantos traços pagãos que saltam aos olhos. Mas somos assim. Somos feitos de sangue, dores, mortes, solidão, mas que se mesclam na alma com a alegria, a vida, esperança, bondade, amor. Somos tudo isso que Roma oferece, basta escolher, fazer o caminho, optar. Penso nas minhas escolhas, nos caminhos percorridos, nos tempos perdidos e encontrados. Será que eu soube aproveitar as oportunidades? Será que fui digno de tudo que me foi oferecido? Será que soube aproveitar o que estava além dos meus olhos e que poderiam preencher o espírito? Ouço o som das ruas que chegam até aqui e num rápido olhar em torno a mim, consigo enxergar árvores, prédios, pássaros, céu azul, montanhas e um guindaste que se move, indicando que a eternidade se faz com obras. O novo precisa de espaço para continuar a história. Eu também preciso abrir um canteiro de obras em mim, preciso me preparar para o novo. Construir uma vida precisa acima de tudo de coragem. É um desafio viver cada dia. Como é interessante observar nossos progressos e descobrir que guardamos muito do que fomos, mas, sem dúvidas, não somos os mesmos. Eu não sou o mesmo de onze anos atrás, mudei muito, melhorei muito, mas também, não posso mentir para mim mesmo, acentuei alguns vícios, criei outros, descobri meus limites e, muitas vezes, tenho raiva de não ser aquilo que quero ser. A pouco tempo completei onze anos que iniciei o meu caminho. Onze anos de saudades e desafios, de sonhos e graças, de lágrimas e sorrisos . Ainda guardo na memória cada detalhe dessa minha escolha, o frio na barriga ainda existe, ainda sinto as pernas bambas do primeiro telefonema, sinto nas mãos a primeira correspondência, onde li e reli quase à loucura tudo o que me mandaram, tenho nos lábios o anuncio da partida, fecho os olhos e a chuva daquela madrugada volta a cair, sinto o cheiro do meu primeiro quarto fora do lar. Quando será que esse acontecimento deixará de me emocionar. Quantas lágrimas ainda precisarei derramar para dizer a mim mesmo que valeu a pena, que não preciso carregar culpas, que está tudo bem e que aquela coragem acontece uma vez na vida e eu soube aproveitá-la, sim, soube aproveitá-la. Coragem... Coragem... Fé... Essa coragem que tive nem sempre me acompanhou durante esse tempo todo. Muitas vezes me deixou só. Eu me humilhava, pedia, implorava para que ficasse sempre comigo, mas ela não ficava. Quanto medo. Mas posso dizer que recebi muito mais do que dei. Que o tempo de encantamento superava o tempo de escuridão. Posso dizer ainda que sempre carreguei comigo o sonho de um mundo melhor. Esse não me abandonou nunca. Ah, esse sim foi meu companheiro de caminho, esteve ao meu lado nas noites frias e me sustentava, fazia-me despertar e me derrubava da cama, abria a janela e, mesmo com chuva, dizia: “olha que belo dia. Olha que sol lindo por destras das nuvens. Olha quantas coisas boas você pode fazer hoje...”. E eu acreditava em cada palavra e sonhava, sonhava. É bom ter coragem, nos fortalece na hora das decisões fortes da vida. Mas melhor ainda é ter sonhos. Melhor ainda é sonhar. Posso dizer que não foi a coragem que me trouxe aqui para esse mirante, não foi a coragem que me colocou diante da Cidade Eterna, não foi a coragem que me proporcionou tantos momentos especiais. Se estou aqui, é porque sonhei. E o sonho não me abandou nunca. O sonho me ajuda a entender o que Deus quer de mim. Ajuda-me a reler a minha história, a fazer projetos. Sonhar é deixar-se abandonar nos braços de Deus e dormir como um menino. .........
Outro dia eu comprei minha passagem de volta ao Brasil. Estava comigo o Vagner, sempre pronto e disponível, mas a coragem não entrou naquela sala, eu insisti para que ela ficasse comigo, mas me deixou mais uma vez. No entanto o sonho veio sem ao menos ser convidado. Ficou comigo, acalmou meu coração, encheu meu olhos de esperança e me disse: “você não está só. Tens ainda muita coisa para fazer”. E eu, mais uma vez acreditei. Desculpe-me Martin Luther king, mas eu também tenho um sonho... Sonhemos juntos!

Um comentário:

jorge disse...

Parabéns! É muita inspiração...